out 182018

Vida de estrangeiro: tem solidão? 

A solidão é um sentimento presente na vida de muitas pessoas. É esperado que, em alguma etapa da vida, a sensação de se sentir só apareça com mais frequência. Isso ocorre, por exemplo, em uma separação, na morte de um ente querido, ou na experiência de morar fora. 

A experiência de morar em outro país faz com que, muitas vezes, o sentimento de solidão se intensifique, pois há uma distância real das pessoas com quem temos vínculos fortes, como família e amigos. Além disso, o estrangeiro sente e vive sozinho essa experiência. É quase impossível dividir com outro, de forma plena, os momentos de frustração, medo, tristeza e alegria, que ocorrem nesse processo. 

Através da escuta dos e das pacientes que moram no exterior, tenho observado que eles e elas se sentem sozinhos e tristes, principalmente porque buscam e tentam encaixar as relações, que possuíam no país de origem, no novo país. Eles e elas esperam encontrar os mesmos tipos de relações sociais. Isso é missão impossível!

Cada relação tem sua história e somos diferentes dependendo do tipo de relacionamento e da pessoa envolvida, pois cada ser humano é único e desperta em nós diferentes aspectos do nosso psiquismo. Não somos a mesma pessoa em todas as relações. Talvez o desafio nessa situação seja lidar com o desconhecido na hora de se relacionar (além do pacote completo de diferenças que já acompanham a vida de um estrangeiro!). 

Esse “novo” pode assustar, causar medo, mas pode ser bom e nos surpreender também. “A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar” (O Pequeno Príncipe).

É provável que, ao experimentar novos relacionamentos, podemos ter mais clareza das coisas que nos agradam e também das que não suportamos. É uma vivência que vai nos impulsionar a olhar nossos limites, desejos e sentimentos. Além disso, não podemos esquecer que os laços sociais evidenciam a cultura e os costumes de um país. A cultura é determinante na construção de laços sociais e na subjetividade.

A diferença cultural pode provocar mal estar e sofrimento, fazendo com que o sujeito coloque em questão seus modos de estabelecer laços e aspectos de sua identidade. Esse momento de “choque cultural” pode provocar sintomas como isolamento e solidão.

É importante se aprofundar sobre isso e refletir: 

Sinto-me sozinho porque não reconheço meus valores no novo país?

Sinto que estou abandonando minhas referências de origem ao me identificar com o país estrangeiro? 

Sinto que minha cultura é desvalorizada (por mim ou pelos outros) diante da cultura local? 

Onde estou encontrando dificuldades para me relacionar? 

Em que momentos a solidão aparece? 

Muitas circunstâncias e explicações são possíveis diante do sentimento de solidão, pois cada sujeito tem uma resposta singular para essas questões. Assim, talvez seja essencial o estrangeiro ser escutado dentro de um trabalho terapêutico. 

Viver como estrangeiro é um tremendo desafio. Mas é sobretudo uma janela de oportunidade para se abrir para o outro e para um processo de autoconhecimento.


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