nov 282018
Culpa: é possível viver sem?

A culpa é um sentimento com o qual estamos tão familiarizados. Quem nunca se sentiu culpado(a)? Impossível!

A culpa está intrinsecamente ligada aos sofrimentos emocionais, pois se encontra na origem dos conflitos psíquicos.

Ela pode surgir em diversos momentos: quando nos sentimos em falta, quando renunciamos a um projeto, quando mudamos de país, quando ousamos desagradar o outro e, muitas vezes, quando assumimos nosso próprio desejo! Não necessariamente precisamos ter feito algo “mal” para nos sentirmos culpados, apenas a intenção do ato já provoca culpa.

Freud analisou o sentimento de culpa em várias passagens de sua obra. Acredito, contudo, que seja importante analisar um determinado argumento desse autor. Ele afirma que a culpa pode revelar uma agressividade, que não foi satisfeita sobre outros indivíduos, e que acaba sendo descarregada no próprio sujeito. Essa tensão é a culpa, a necessidade de uma autopunição.

“A civilização, portanto, consegue dominar o perigoso desejo de agressão do indivíduo, enfraquecendo-o, desarmando-o e estabelecendo no seu interior um agente para cuidar dele, como uma guarnição numa cidade conquistada.” (Freud, 1930).

Tenho observado frequentemente na fala dos e das pacientes o sentimento de culpa. Ele aparece de mansinho, tomando conta e provocando angústias e impasses na hora de tomar decisões.

Nesses momentos, é preciso se questionar e compreender por que a culpa aparece em determinada situação e qual a sua função nesse contexto.

 É necessário refletir e se perguntar: quem nos culpabiliza? O que nos culpabiliza? Temos medo do que: de superar nossos pais? Em fazer melhor ou diferente das pessoas? Perder o amor do outro? Desapontar os amigos? Parar de aparecer como alguém de “bem”? Ferir o outro? Ser percebido como um egoísta que pensa muito em si mesmo?

Talvez o primeiro passo para trabalhar a culpa seja um esforço de “desidealização” de si mesmo. Não somos tão poderosos quanto gostaríamos e a nossa condição de vulnerabilidade, enquanto seres humanos, exclui a perfeição.

Entretanto, por que lutamos frequentemente para preservar esse lugar de ideal?

 A culpa pode aparecer também quando acreditamos que não estamos nesse lugar “ideal”. Esse lugar é construído internamente. Portanto, parece que não estamos correspondendo às expectativas que o outro nos coloca, ou que acreditamos que ele nos impõe.

Para a Psicanálise, há em nós duas pessoas: uma pronta a se trair e a renunciar às suas aspirações, e outra que quer fazer de tudo para triunfar seus desejos e não abrir mão de nada. A vida é um difícil diálogo entre esses dois personagens do nosso mundo psíquico, e a culpa pode aparecer como uma das consequências desse eterno conflito.

A psicanalista Isabelle Taubes coloca algo muito importante para refletirmos: a responsabilidade é o melhor remédio ao veneno da culpa.

Cabe a nós a responsabilidade de assumir nossas escolhas, nossos erros ou os possíveis danos que podemos cometer.

“Por sermos indivíduos, sujeitos da razão subjetiva, acabamos sempre envergonhados e culpados de nossas escolhas e de nossos atos. Se invocamos nossos interesses, somos culpados da miséria de nossas motivações. Se invocarmos princípios éticos universais (nossa tradição), somos culpados de mentir” (Contardo Calligaris, 1994).

Em um trabalho psicoterapêutico, podemos fazer “ajustamentos” para construirmos uma relação mais suportável com a culpa. Exterminá-la definitivamente, contudo, é impossível.

Referências bibliográficas

CALLIGARIS, Contardo. Crônicas Americanas 3, Jornal Folha de São Paulo, domingo 30 de janeiro de 1994.

FREUD (1930) Mal estar na civilização. In: Obras Completas ESB vol. XXI. Trad. Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1980.

 TAUBES, Isabelle. “Peut-on en finir avec la culpabilité?”, Revista francesa Psychologie (n°389), setembro 2018.

 


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